Nem tudo que reluz é ouro

O IBGE divulgou a PNAD – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – e, junto com ela, a mídia “tradicional” aproveitou para fazer aquelas comparações sensacionalistas que garantem os pontos no IBOPE. A questão amplamente divulgada (ou, pelo menos, assinalada) foi o aumento da telefonia, em especial a móvel, em comparação às informações de acesso ao saneamento básico e rede de água potável, estas últimas apresentaram crescimento modesto.

Aos que queiram acessar a Pesquisa o site do IBGE fornece ampla base de dados, mas preferiremos aqui tratar da divulgação destes dados pela imprensa.

Ao noticiar o avanço da telefonia nas residências brasileiras, intensamente fizeram uso de uma análise enviesada, contrapondo a oferta destes serviços antes, quando ainda estavam sob os mandos estatais, e o depois, quando da privatização dos serviços. Fizeram questão de frisar que, naqueles tempos, o telefone era um bem, com ações negociáveis, cuja aquisição demorava bastante tempo e, em boa parte das vezes, demandando algum tipo de ágio. Tentam evidenciar a ineficiência estatal e, nas entrelinhas, reforçam o discurso neoliberal de privatização, onde, segundo seus defensores, o Estado deveria se preocupar apenas com os tais bens públicos puros, sejam estes defesa, justiça e segurança pública.

No entanto, não podemos confundir universalização com eficiência. É notório que o acesso aos serviços foi facilitado, proporcionando simplicidade ao processo de aquisição de uma linha telefônica sob custos bem menores do que os praticados quando o serviço era estatal. De maneira análoga, podemos reclamar aos quatro ventos, mas o SUS, por exemplo, é universal. Ou seja, qualquer cidadão brasileiro, portando um documento de identificação, pode acessar as unidades de saúde.

Seguindo esta linha de pensamento, os serviços de telefonia ficaram mais acessível e baratos, mas falta uma variável interessante: a qualidade. As companhias telefônicas são as campeãs em reclamações nos órgãos de defesa do consumidor, além de praticar tarifas extremamente elevadas. Além disso, mesmo sob o falatório de alguns, que juram por tudo que é mais sagrado que deixando o serviço na mão do “mercado” a competição se encarregaria de otimizar e maximizar o serviço, observamos a existência de uma tendência de concentração de mercado – também verificado em boa parte do sistema capitalista -, deixando o consumidor na mão de monopólios, duopólios ou oligopólios, na melhor da opções. Logo, em última instância, tivemos uma quebra do monopólio estatal, mas favorecemos a concentração privada.

As empresas que compraram o sistema durante as privatizações adquiriram uma “galinha dos ovos de ouro”, contando com uma rede já instalada, sem arcar com o ônus de “começar do zero”. Por outro lado, os defensores dirão que altos investimentos foram realizados, mas só o foram porque a viabilidade financeira estava garantida, uma vez que a base de clientes já estava consolidada.

Enfim, escrevo essas linhas para lembrá-los de uma frase que um sábio professor que conheci fazia questão de repetir com freqüência: cuidado com o que está nas entrelinhas! Eu, você ou qualquer pessoa, ao colocar seu ponto de vista o faz “embutindo” uma verdade e não necessariamente esta é absoluta. Aliás, já diria um célebre cidadão que “tudo é relativo”.

Até as cenas dos próximos capítulos...

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