A Sociedade da Omissão
Em discussão com um colega de trabalho, tratávamos sobre diversos assuntos, entre eles, os níveis de renda da nossa região. Terminado o momento de descontração, fui ao site da SEI - Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia, instituição do Governo do Estado da Bahia que publica constantemente dados econômicos sobre nosso Estado, em especial, o nível de emprego.
A partir da PED – Pesquisa de Emprego e Desemprego, disponível aqui – verifiquei que a Região Metropolitana de Salvador (RMS), a terceira do país, conta, atualmente, com uma população estimada de 3.225.000 habitantes, dos quais, 1.867.000 são “economicamente ativos” e muito menos estão ocupados. Até aí, nenhuma novidade, já que Salvador é a capital do desemprego no Brasil.No entanto, os dados que mais assustaram são os referentes aos rendimentos. Os trabalhadores do Setor Privado têm, em média, rendimentos de R$ 1.168,00/mês, enquanto que os do Setor Público chegam aos R$ 1.903,00/mês, também em média.
Com base em outra série histórica, no mês de Fevereiro/2010, apenas 10%, repito dez por cento, dos “ocupados” ganhavam acima de R$ 2.042,00. Destes, os assalariados (também os mesmos 10%) têm como piso R$ 2.239,00/mês.
Dito de outra forma, 90% da população tem rendimento médio de menos de R$ 2.239,00/mês!
Diante destes dados, minha mente se lembrou do juramento que fiz, quando da minha formatura:
“Perante Deus eu Juro fazer da minha profissão de [...] um instrumento não de valorização pessoal, mas sim utilizá-lo para promoção do bem estar social e econômico de meu povo e minha nação, cooperar com o desenvolvimento da ciência [...] e suas aplicações, observando sempre os postulados da ética profissional.”
Intencionalmente omiti a profissão, pois acredito que seja um juramento equivalente a boa parte dos realizados pelos profissionais das diversas áreas.
Também me lembrei de um pensamento de Hipólito Costa, jornalista que viveu no Brasil Colonial, talvez um dos primeiros do Brasil, que brilhantemente apontava:
"O primeiro dever do homem em sociedade he de ser util aos membros della; e cada um deve, segundo suas forças Phisicas, ou Moraes, administrar, em beneficio da mesma, os conhecimentos, ou talentos, que a natureza, a arte, ou a educação lhe prestou. O individuo, que abrange o bem geral d'uma sociedade, vem a ser o membro mais disticto della: as luzes, que elle espalha, tiram das trevas, ou da illuzão, aquelles, que a ignorancia precipitou no labyrintho da apathia, da inepcia, e do engano." [Hipólito José da Costa – 1774-1823]
Nos preocupamos em blindar carros, criar condomínios FECHADOS, isolar nossos filhos e parentes do contato com a sociedade, tentando comprar uma paz social que está ameaçada pelo abismo econômico que permitimos em nossas realidades. Incrédulos nas mudanças, pois nosso sistema político parece inócuo, simplesmente abandonamos nossa sociedade, assumindo que parece algo sem conserto. Preferimos tratar da nossa vida individual, pressupondo que poderemos viver em feudos modernos, comprando segurança, saúde, etc.
Partindo dos dados apresentados no começo desse post, vamos supor que os 90% que citamos, aproximadamente 2,90 milhões de pessoas, decidam “querer mais” e saíam às ruas vandalizando a propriedade privada, convertendo a opressão em violência, transformando carência em força. Como reagiríamos a essa “guerra civil”? Resolveríamos tudo à bala? Compraríamos proteção de quem?
Precisamos mudar essa sociedade omissa, repensando nosso papel enquanto indivíduos inseridos numa sociedade que pede socorro. Não tenho a pretensão de oferecer respostas definitivas, nem sou capaz de eleger a melhor forma de combatermos essa desigualdade. Mas quero lembrá-los que a “conta” desse descaso virá e o pagamento, provavelmente, será mais alto do que nossas disponibilidades. Devemos meditar, pensar, discutir, interagir, escrever, ler, enfim, dedicar algum esforço para levantarmos possibilidades de redução deste abismo. As eleições estão aí! Nossos futuros representantes têm a possibilidade de intervir, mas não o farão, caso não coloquemos isso como prioridade. Também não devemos ter a ilusão de que uma “canetada” mudará tudo. Precisamos rediscutir nossos valores, buscando maneiras de minimizar essa desigualdade. A mitigação desse problema social é fundamental para que possamos viver de forma mais prazerosa no futuro e, também, já no agora.
Pense nisso: qual será o preço da nossa omissão? Pregamos aqui a busca da vida financeira equilibrada que nos possibilitará curtir o que a vida tem de bom a oferecer. Mas, se nada fizermos nessa outra frente, não creio que de fato seremos “ricos”. Convido você, mais uma vez, a refletir, compartilhar seus pensamentos com seus pares, tentar pensar sobre a possibilidade da sua contribuição para que tenhamos uma vida em sociedade mais harmoniosa.
Até as cenas dos próximos capitulos...


1 comentários:
A sociedade tem mantido certo ritmo, que certamente ainda não o mais adequado, ao criar programas para melhorar a qualidade de vida dos indivíduos, em especial as crianças, rotulados como em “situação de risco social” (...todo e qualquer fator que expõe a criança ou adolescente à vitimização no desenvolvimento da sua integridade psico-social, segundo os preceitos do ECA: drogadição, exploração de trabalho infantil, abuso e violência sexual, pobreza extrema, negligência doméstica e educacional...).
Seu texto reflete nossa realidade urbana. Me lembrei, no entanto, que comecei o dia sorrindo ao ler uma cartinha de um menino de 11 anos, apoiado pela Action Aid, e que recolhi cedo na minha caixa de correio. Com muito cuidado, numa caligrafia caprichada, me contou os progressos que tem feito na escola, na alimentação e na sua higiene. Observo seu crescimento com alegria, ao longo dos anos que o apoio, à distância. A região em que vive (norte de Minas Gerais) vem sofrendo, ainda, as conseqüências da política de latifúndios - degradação ambiental, exclusão da população local do processo de geração de renda, culminando na migração e enchimento dos bolsões de misérias das médias cidades... o que nos leva de volta à nossa realidade urbana.
Existem, porém, ações humanitárias focadas, independentes de políticas governamentais, fortalecendo a agricultura de subsistência, o papel da mulher enquanto chefe de família, a educação e a saúde coletiva, lançando as bases para uma saudável fixação no “campo”. Embora taxadas por muitos como “ações meramente assistencialistas”, acredito que temos que começar por algum lugar. Acreditar e investir no sonho destas crianças, enquanto embalo o sonho das minhas, também faz parte do meu pacote de prováveis soluções.
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